O que sobra depois do trabalho, da travessia, da exploração?
Um estafeta de entregas ao domicílio, imigrante, pedala num local urbano. Usa uma mochila exageradamente grande, que parece engoli-lo ou fundir-se com o seu corpo. Está cansado, e o cheiro da comida que carrega lembra-lhe que está faminto também.
Enquanto o primeiro se afasta, outro estafeta, no período de descanso, assiste a vídeos nas redes sociais, com os quais tenta aprender um pouco mais do idioma do país que o acolhe. São discursos de propaganda que atacam os imigrantes e as políticas que os protegem, mas cujas frases ele repete, sem entender o que ouve, mas fascinado pela eloquência daqueles oradores.
Ambos os estafetas partilham a mesma mochila, que é a sua carga e o centro da sua vida: na impossibilidade de acederem a uma habitação, fazem da mochila o abrigo, que por via dessa necessidade é obrigada a aumentar de tamanho, já que eles não conseguem diminuir-se a si mesmos ainda mais.
Resolveram de forma económica o problema da alimentação, recolhendo no final da jornada os restos que caíram na mochila e fazendo deles a sua refeição. Talvez por isso sejam particularmente desajeitados na manipulação da mochila… Por isso, e pelo cansaço permanente que os consome.
Criação, coordenação, texto e voz off: Luzia Paramés
Intérpretes e co-criadores: César Melo e Jefferson Oliveira
Áudio: Sandro Esperança
Adereços: Marta Fernandes da Silva
Assistência de cena: Sofia Bravo
Assistência de produção e teaser: João Guerreiro
Financiamento: Câmara Municipal de Almada
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Estreia Maio 2026 Escola Secundária António Gedeão